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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Bem recebidos? Não em todo o lado...

Temos vindo a dizer a todos e até aqui no blog que o Reino Unido é um país em que em geral os estrangeiros são bem recebidos. O "em geral" tem vindo a ganhar preponderância na frase anterior, tendo em conta algumas experiências recentes.

Da passagem por Cardiff guardamos um povo afável e aberto à diversidade. A transição para March não foi fácil, como escrevemos aqui na altura, pois foi um mini-choque cultural (e demográfico, porque não dizê-lo). Ainda assim, March é um lugar que não esqueceremos e mantemos belas recordações do tempo em que lá estivemos.

Viver em Bury St Edmunds é, por assim dizer, um "meio termo" entre viver numa cidade predominantemente jovem e multi-cultural como Cardiff e numa pequena vila nas profundezas da Inglaterra rural (March). Bury St Edmunds é uma vila elegante que mantém um equilíbrio muito bem conseguido entre tradição e um estilo de vida moderno. O charme de Bury St Edmunds certamente aumentou com a presença significativa de uma (endinheirada) comunidade norte-americana, dada a presença de duas bases aéreas nos arredores.

Contudo, quando partimos à descoberta daquilo que é a East of England (Este de Inglaterra, do qual fazem parte March e Bury) já fomos deparamos com surpresas menos agradáveis, que claramente resultam do crescente clima de hostilidade em relação a todos os que não são "British". Numa das ocasiões tentamos encontrar um sitio para jantar numa terra bastante rural a cerca de 15 milhas de Bury St Edmunds, e em que nos foi dito que não havia mesa para nós. Num sítio, tudo bem. Em dois... ao terceiro acabaram-se as dúvidas, apesar do subtil toque de "politeness" à inglesa. O sotaque determinou, com certeza, e o facto de naquele dia estarmos vestidos "à Verão" também não terá ajudado.

Pensamos que este tipo de situações acontece mais em lugares rurais onde o desconhecimento e a "pequenez"  de espírito é mais evidente. Não é definitivamente algo generalizado, felizmente!

Já falamos com emigrantes como nós a viver em Londres e todos são peremptórios em afirmar o quão integrados estão e como nunca sentiram discriminação pela nacionalidade. Não é difícil de acreditar, tendo em conta o quão especial e "multi" Londres é. Contudo, lugares como Thetford e Boston são a pouco mais de uma hora de distância (muito perto para o padrão britânico) e os portugueses que por lá encontramos certamente têm uma história bem diferente para contar...

quinta-feira, 28 de março de 2013

Boston, Lincolnshire

No passado fim-de-semana fomos a Boston...não, não é "esse" Boston (no Massachusetts, EUA): é Boston, Lincolnshire. Curiosamente, o Boston dos EUA deve o seu nome a este Boston, devido aos colonos britânicos daí provenientes que lá atracaram algures no século XVII. E este não é caso único: não faltam exemplos de cidades britânicas com nomes correspondentes no Reino Unido! Por exemplo, Cambridge existe também no Massachusetts e é casa da famosa Universidade de Harvard. Mas também existe Londres (numa variedade de estados), Birmingham (no Alabama), Sheffield (em vários estados também), York (New York...) e até Cardiff! Mas não é desta curiosidade que vos queremos falar hoje.

Boston (Lincolnshire) é também casa de uma grande comunidade portuguesa: cerca de 5000 pessoas numa cidade com população total de 65000. Boston é uma cidade com um pequeno porto, em plena Inglaterra rural. Está bem no centro da maior zona de produção agrícola (estufas na sua maioria, o clima não dá para mais) da Grã-Bretanha. E é exactamente para esta indústria que têm vindo trabalhar nas últimas décadas estes nossos compatriotas, seja em trabalho sazonal ou permanente.

Boston, Lincolnshire (fonte: Wikipedia)
Quem chega a Boston e, em particular, ao "bairro" português não nota nada de diferente. Não se vêem lojas com indicações portuguesas (como em Lambeth e Stockwell em Londres), muito menos bandeiras portuguesas nas janelas. A constatação é evidente e a tensão sente-se no ar: os portugueses em Boston (e na maior parte da Inglaterra rural) não são bem-vindos por uma parte significativa da população.

O motivo é fácil de adivinhar. É a boa velha treta do "vêem estes aqui roubar os nossos empregos. Ide para a vossa terra.". Treta, por muitas razões. A maior destas é a que está visível para todos, menos para estes nativos: porque é que os patrões se dão ao trabalho de ir a Portugal buscar tanta mão-de-obra, na sua grande maioria indiferenciada, com tanta mão-de-obra britânica disponível?... o tom é sarcástico, já perceberam. Simplesmente, os nativos não estão na disponibilidade de fazer este trabalho. Não só os portugueses (entre outros estrangeiros, com os polacos à cabeça) ajudam a levar a agricultura britânica para a frente, como ainda ajudam a economia local e nacional: fazem descontos para a segurança social, pagam impostos, renda e imposto municipal (council tax), consomem nos (super)mercados locais, ajudando a criar novos empregos...é preciso mais? Isto é o que se pode chamar um "win-win" para nativos e estrangeiros. Mas há quem veja muito curto...

Situações lamentáveis envolvendo ataques e provocações têm vindo a decrescer, ao que parece. E ainda bem. Aparentemente, as pessoas já estão mais habituadas aos portugueses agora. Mas ainda não o suficiente para o supermercado Boston Delicatessen ter no exterior qualquer menção a Portugal. Infelizmente. Mas no interior é como se estivéssemos em casa (quase!). Mas uma casa "partilhada" com polacos e outros nativos do leste da Europa. É isso que a Boston Delicatessen é: um espaço onde encontramos um pouco de tudo que tomamos por garantido quando estamos em Portugal, inclusive um simples "olá" em Português.

Nunca nos sentimos "a mais" por aqui, pelo contrário. Ainda não tivemos o azar de ouvir "vai para a tua terra". Mas somos tão estrangeiros quanto os outros, pode acontecer... e os tempos estão para ressuscitar velhos extremismos pela velha Europa...esperamos estar enganados!