Diz-se que o hábito faz o monge. Depois de quase três anos por estas bandas, a noção de calor e frio muda bastante. Hoje em dia, o que em Portugal seria para nós um dia frio, aqui até dá para andar em mangas de camisa (e eles de t-shirt e calções/saia sem meias e de sandálias!). Então imaginem quando os termómetros indicam uns estonteantes... 25º C! É a loucura!
Uma das "praias" de Londres: o Green Park (fonte: standard.co.uk)
A atitude perante os 25ºC aqui é quase como se fossem 35ºC em Portugal. Até para nós parece imenso calor, mas não exageremos. O pessoal anda aqui quase nú, o que para a maior parte do pessoal dá para ficar um camarão num instante, ou como alguns dizem aqui "roasted like a crisp".
A verdade é que nós próprios já estamos bem mais "British" do que já alguma vez fomos. Já andamos em mangas de camisa quando em Portugal andaríamos de casaco, já usamos sandálias e sapatos finos quando normalmente usaríamos botas. É mesmo uma questão de hábito e aconteceu sem pensarmos muito nisso. Há algo que não pode ser negado na argumentação: se ficarmos à espera do "bom" tempo para usar a roupa de Verão, mais vale não ter roupa de Verão! Sairia mais barato, é certo...
Esta imagem é de uma belíssima coffee shop que podemos encontrar em Bury St Edmunds chamada Harriet's. Podia de de muitas outras cidades e vilas tais como Cambridge, Stratford-upon-Avon, Windsor, York ou até March. Mas esta coffe shop é especial para nós e vamos neste post tentar explicar o porquê.
Quando se pensa no Reino Unido ou em Inglaterra, uma das primeiras coisas que ocorrem é seguramente Londres. E apesar de ser uma cidade fascinante, carregada de história, imponência e vida (até demais!), não é, em nossa opinião, uma representação fiel do que é o Reino Unido ou viver no Reino Unido. Londres, até para o comum dos nativos das nossas bandas, é assim uma espécie de “ilha” dentro da própria ilha, onde tudo é em grande, para o bem e para o mal.
Porém, não é preciso andar muito para fora de Londres para perceber que a realidade do país é bem diferente. Por exemplo, quem já fez a ligação de autocarro ou comboio Londres – Aeroporto de Stansted sabe que logo ao fim de 10/15 minutos entra numa grande planície verdejante e é este o panorama até ao aeroporto. Isto resume em grande medida o que é o Reino Unido (excluindo a Escócia, que parece ser bem mais montanhosa, e partes do País de Gales): uma grande planície verdejante com algumas grandes e médias cidades pelo meio (Londres é à parte, mas também existem outras cidades bem grandes como Birmingham, Manchester e Liverpool) e salpicada de muitas pequenas vilinhas onde tudo acontece bem mais devagar.
O Reino Unido é um país com uma matriz rural muito marcada, ainda que uma ruralidade bem mais instruída e evoluída do que a que o termo normalmente carrega. Se as casas são de bonecas, as propriedades são de perder de vista. Há gado por todo o lado, cavalos, coelhos bravos, esquilos… é um deleite para quem gosta de campo e de um estilo de vida mais pacato.
O Hengrave Hall
E é neste contexto que Bury St. Edmunds se insere: é uma vila de 40000 habitantes que tem um estilo rural e tranquilo mantendo quase tudo o que uma cidade precisa de ter. Tem uma zona histórica muito pitoresca, uma arquitectura tradicional bastante preservada, espaços verdes públicos muito bem cuidados e uma delimitação muito clara entre zonas comerciais e residenciais. O ambiente é bastante mais homogéneo do que em cidades como Londres (há estrangeiros, como nós, mas nota-se muito menos a mistura) e o comércio é muito mais baseado em lojas de rua independentes.
Estátua do Rei Edmundo junto aos Abbey Gardens
Panorama do centro da vila
Deste comércio independente salta à vista a quantidade e qualidade de coffee e tea rooms, onde se podem comer os tradicionais bolos ingleses à fatia (o bolo de cenoura, de limão, de caramelo e café, …) e scones recheados deliciosos, acompanhados por um bom pote de chá (com muitas qualidades à disposição) ou um "malgão" de café à inglesa.
Cream tea no Harriet's
Destas destaca-se o Harriet's. Mas que o tem o Harriet's de especial? Pois bem, para além da sua localização bem no coração de Bury St Edmunds, destaca-se pelos funcionários vestidos como manda a tradição, a decoração, o serviço, tudo isto nos faz sentir que somos príncipes e princesas a tomar chá com a Rainha!
É este, em nossa opinião, o ambiente e contexto que melhor
representa o ordenamento e estilo de vida da maioria dos britânicos (se
excluirmos Grande Londres e os seus 10 milhões de habitantes, 1/6 da
população total). Portanto, deixamos aqui o convite para o comprovarem,
saindo da “rota batida” de Londres e partindo em busca de uma
experiência verdadeiramente Britânica!
O que prometia, cumpriu-se: é uma experiência única viver os Jogos Olímpicos por dentro!
O Parque Olímpico
Bem diferente do ambiente de um clássico de futebol, por exemplo, estar nuns Jogos Olímpicos é uma Sociedade das Nações que, apesar do apoio incondicional aos atletas das suas cores é, acima de tudo, fraternal. Os Jogos Olímpicos, como os vimos, são a celebração e o modelo de como deveria ser a relação entre todos. Mas o "mundo real" não é (bem) assim...
A organização, como seria de esperar, é irrepreensível, os voluntários são inexcedíveis em fazer as pessoas sentirem-se "em casa" e, surpreendentemente, não nos sentimos demasiado "vigiados" (mas certamente fomos, tal a paranóia securitária que a organização promoveu).
Começamos por ver ao vivo e a cores a maratona feminina na Parliament Square, bem ao ladinho do Big Ben. E que bem as nossas maratonistas nos representaram, são um orgulho para Portugal! Se estiverem com atenção podem ver as três no vídeo abaixo.
O Parque Olímpico está implantado à saída do Grande Londres, junto ao Tamisa, e a disposição alia uma arquitectura vanguardista ao campo, tão característico do Reino Unido. A disposição dos pavilhões/estádio é relativamente compacta e os espaços vazios são bem complementados por várias áreas de restauração e piquenique.
O Aquatics Centre
O Velódromo
O Park Live (zona central do Parque com ecrãs gigantes)
Em termos de competição, o que dizer? Vimos, num Estádio Olímpico lindíssimo e a fervilhar emoção, a segunda corrida de 100 metros mais rápida de sempre! Usain Bolt a pulverizar o seu próprio recorde olímpico e a mostrar que este é mesmo o seu tempo!
Bolt na sua habitual performance antes de cada prova
Vimos a nossa Vera Barbosa bater o recorde nacional nos 400 metros barreiras e qualificar-se para as meias finais! Tivemos ainda o imenso privilégio de ver a lenda Oscar Pistorius ao vivo! Para quem não sabe, este super-atleta especialista nos 400 metros planos é duplamente amputado e corre com próteses verdadeiramente em pé de igualdade com a elite! Vimos ainda outras finais, como o triplo salto feminino (uma pena não estar lá a nossa Patrícia Mamona), o lançamento do martelo masculino e os 3000 metros obstáculos masculinos (o nosso Alberto Paulo também falhou a final).
O Estádio Olímpico
No dia seguinte, ainda não refeitos de tanta emoção e tão pouco sono, agarramos novamente na nossa bandeira a caminho de Eton Dorney, à saída de Londres, para apoiar a canoagem Portuguesa! Eton Dorney é um belíssimo complexo de canoagem/remo implantado num
típico cenário verdejante do Reino Unido. Incluí ainda um muito bem
tratado recinto de corridas de cavalos.
Eton Dorney
Como habitual, a organização foi a eficiência de sempre, e soube muito bem ver os nossos canoístas elevar bem alto o nome de Portugal até às finais, perante mais de 10 mil pessoas no local (e muitos milhões por esse Mundo fora). E hoje ainda mais felizes ficamos por ver que a dupla Pimenta/Silva (K2 1000 metros) conseguiu uma brilhantíssima medalha de prata (mesmo à portinha do ouro)!!
A dupla Pimenta/Silva antes da primeira eliminatória do K2 1000 metros
Não nos podemos esquecer também do nosso K4 500 metros feminino (Portela/Gomes/Vasconcelos/Rodrigues) que ficou num excelente 6º lugar final!
O K4 500 metros português em primeiro plano (primeiro kayak à direita)
E os nossos canoístas não irão ficar por aqui, garantimos nós!
Foi, em suma, uma experiência espectacular e, quem sabe, para repetir um dia!
Bem tínhamos dito aqui que, se tivéssemos a chance, não iríamos enjeitar a ida aos Jogos Olímpicos! Pois bem, mas longe estávamos de acreditar que iríamos conseguir bilhetes para a mais cobiçada de todas as provas: a final dos 100m!
Foi precisa muita sorte (e alguns euros/libras, é certo, mas sem exageros!!) para conseguir lá estar, mas vamos poder desfrutar da oportunidade única de sentir o fervilhar de um evento desta dimensão! Esperemos que o clima ajude, pois não imaginam como tem estado por cá o tempo: o período Abril a Junho mais chuvoso desde que há registos no Reino Unido (e Julho vai pelo mesmo caminho, apesar da melhoria dos últimos dias!).
Esperamos que o Usain "lightning" Bolt esteja presente e em grande forma (está neste momento em dúvida para a competição). Mas tem grande concorrência este ano de outro jamaicano: Yohan Blake (fixem este nome!!). Infelizmente, o nosso Obikwelu está lesionado e não irá estar presente.
Mas nem só de 100 metros viverá esta nossa ida ao Parque Olímpico: para além de várias provas no estádio (incluindo a final feminina dos 400 metros planos), vai haver muito para ver no Parque Olímpico, que parece ser lindíssimo (vejam mais fotos aéreas neste link)!
Vista aérea do Parque Olímpico (fonte: site da BBC)
No dia seguinte, estamos bem longe do Parque Olímpico (e do centro de Londres), para algo completamente diferente: vamos apoiar os nossos canoístas (10 ao todo, 6 titulares e 4 suplentes, para 6 eventos) em Eton Dorney, Buckinghamshire.
O lago de Eton Dorney (fonte: site oficial dos Jogos Olímpicos 2012)
Para quem não sabe, Portugal tem evoluído imenso a nível internacional na canoagem e seguramente vai estar em destaque em Londres 2012. Algumas finais serão certamente atingidas, mais que isso...logo se verá! Força a todos! Vamos estar apenas no dia das eliminatórias, as finais são no dia seguinte... mas lá estaremos a gritar pelo nosso Portugal!
Quanto à logística do evento e como as coisas fervilham a seis dias do arranque...está literalmente tudo em "estado de sítio"! Londres está impossível a nível de acessibilidades/transportes e a questão da segurança está ao rubro (a última acha para a fogueira foi o fiasco dado pela empresa contratada para a segurança dos Olímpicos. A organização já está a recorrer ao exército para "tapar os buracos"!). Para verem em que ponto está a paranóia da segurança (ou securitarismo, diríamos), vejam o que está a acontecer em Cardiff desde há uma semana: os maiores hotéis têm um sistema de controlo de entrada tipo aeroporto!
O Hilton, no centro de Cardiff. O controlo de segurança é a tenda.
Se isto é assim aqui e é para entrar num hotel, como será para entrar no Parque Olímpico?? Vai ser bonito, vai...mas esperamos sobreviver! Será, com certeza, uma experiência única e inesquecível, esperamos que sempre pelos melhores motivos! Se sobrevivermos, deixar-vos-emos aqui as nossas impressões (e algumas fotos, já agora)! :)
Foi no dia mais quente do ano 2012 (por estes lados) que a chama olímpica chegou a Cardiff.
A chama olímpica no Castelo de Cardiff (retirado de http://www.demotix.com)
Proveniente de uma localização no sudoeste de Inglaterra, a chama entrou no País de Gales através de um número de cidades menores até passar por Newport (3ª cidade do País de Gales) e chegar à capital Cardiff.
Foi um momento marcante para todos os que assistiram, pois é uma experiência que dificilmente voltarão a sentir! Nós incluídos, claro, que temos o privilégio de estar em ano Olímpico no país-sede (mais pormenores sobre isto em breve!!).
Ficam as fotos e o vídeo do momento em que a chama passa junto a nossa casa. Deu para perceber a imensidão da máquina que está por detrás dos Jogos Olímpicos, impecavelmente operada!
Cada carregador de tocha, fardado a rigor pela organização, leva a chama ao longo de aproximadamente 300 metros até a comunicar ao carregador seguinte, transmitindo assim o significado daquilo que nunca se deve apagar: a paz, a unidade e a amizade. Cada um dos 8000 carregadores foi seleccionado pelo impacto do seu contributo para uma sociedade melhor. Cada carregador pode ficar com a sua própria tocha olímpica como recordação, desde que pague cerca de 250 euros. Alguns carregadores têm leiloado as tochas, com o intuito de fazer reverter os lucros para alguma causa (ou para lucro próprio, imaginamos, o que desonraria o significado da iniciativa).
A chama continua agora pelo resto do Reino Unido até chegar ao seu destino, o Estádio Olímpico, no decorrer da cerimónia de abertura dos Jogos, a 27 de Julho. A chama será apagada no dia da cerimónia de encerramento, a 12 de Agosto, sendo posteriormente reactivada para os Jogos Paralímpicos.
É verdade, os Jogos Olímpicos de 2012 são em Londres mas esta foto é em Cardiff, junto ao City Hall (Paços do Concelho).
O símbolo Olímpico em Cardiff
O símbolo dos Olímpicos foi "plantado" no mês passado, indicando que Cardiff é uma das cidades que recebe eventos. Já no próximo dia 25 de Maio vamos ter a tocha Olímpica a percorrer as ruas de Cardiff. Esperamos poder testemunhar o momento e depois mostrar-vos aqui as fotos!
Ainda antes dos Olímpicos (e Paralímpicos), várias selecções vão preparar-se por cá nos vários recintos. Por exemplo, a equipa Olímpica de atletismo da Nova Zelândia estará por cá em estágio antes das provas.
Em termos oficiais, o Millennium Stadium vai receber nove partidas dos torneios olímpicos de futebol masculino e feminino. A primeira dessas partidas é mesmo o primeiro evento dos Jogos! É no dia 25 de Julho, dois dias antes da cerimónia de abertura, um Grâ-Bretanha - Nova Zelândia (torneio feminino). Como atracção, a selecção masculina do Brasil irá jogar por aqui também, no dia 26.
Os bilhetes estão à venda (não compramos nem tencionámos), mas diz-se por aqui que a procura está muito aquém do esperado! Consta que só se venderam ainda 11000 dos 75000 bilhetes disponíveis para o Grâ-Bretanha - Nova Zelândia e os outros jogos estão ainda piores! Os bilhetes têm um preço que não é proibitivo (20 libras e dá para ver os dois jogos do dia), mas pensamos que esta fraca procura deve ter a ver, por um lado, com o facto das equipas Olimpicas de futebol não terem exactamente os melhores jogadores (são selecções sub-23 e podem ter até 3 jogadores acima de 23 anos), mas também com a pouca excitação que suscita "mais um" torneio de futebol. Na verdade, por estes lados (e por esses!!) vê-se futebol o ano inteiro, este é apenas mais um torneio. Há motivos de interesse de sobra nuns Jogos Olímpicos (que apenas decorrem de quatro em quatro anos) para que as pessoas se detenham apenas no futebol. Desses motivos de interesse, destacamos o atletismo e a a natação, que são os nossos desportos preferidos nos Jogos. Mas esses são em Londres... se pudermos iremos fazer uma visitinha a Londres para sentir mais de perto e fazer parte de uma tão grande organização!