quarta-feira, 28 de maio de 2014

O império da quinquilhice

Um dos grandes gostos do povo britânico são as compras/vendas em segunda mão ("pechinchas", está claro), particularmente velharias.

Não há terra nem terrinha que não tenha ao Sábado ou Domingo de manhã (pelo menos!) a sua feira de segunda mão ou feira de “mala do carro”, onde literalmente o pessoal chega, abre a mala do carro e vende tudo o que tenha a mais em casa. Isto para não entrarmos no assunto das lojas de caridade (aqui chamadas “charity shops”), a que voltaremos um destes dias.
 
O mercado da Bessemer Road em Cardiff (fonte: cardifflocalguide.co.uk)
O "car boot" do aeródromo de Rougham, à saida de Bury St Edmunds

Bem, mas a grande notícia nisto é o valor que se dá a estas coisas. Isto é mesmo um mercado a sério, onde se vende de tudo e mais alguma coisa, sendo que muita dela tinham de nos pagar muito bem para comprarmos. Mas vende-se! Dá que pensar quanto valerá a quinquilharia que temos lá por casa em Portugal! Há realmente pessoas muito empenhadas nisto, que vão de feira em feira e adoram “caçar” pechinchas para depois as revenderem. Isto é bem espelhado num programa diário da BBC à hora do almoço chamado “Bargain Hunt” (literalmente “caça à pechincha”). Neste concurso, duas equipas de duas pessoas (normalmente idosos) tem de ir a feiras e lojas de antiguidades/quinquilhice comprar/”marralhar” artigos que depois vão a um daqueles leilões que mais parecem os da polícia (objectos achados/roubados). Ganha no fim a equipa que conseguir ter mais lucro com a revenda dos artigos no leilão. A “ciência” com que as compras são feitas é de estarrecer, garantidamente perdíamos para quaisquer concorrentes! É notável chegar ao fim e verificar o valor pelo qual são arrematadas certas peças que nem dadas as queríamos em casa! Mas lá está, o caixote de lixo de uns é a riqueza de outros…

É realmente algo de apreciar aquando de uma visita ao Reino Unido. Se só vierem a Londres, uma versão refinada destes mercados é o chamado mercado de Portobello Road (no bairro de Notting Hill), principalmente aos Sábados. Vale bem a pena!

O mercado de Portobello Road em Londres (fonte: tripadvisor.com)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Doutores e Engenheiros

Um destes dias, num dos nossos empregos, a maior hierarquia da empresa baseada localmente chegou junto dos funcionários e começou a perguntar se queriam café ou chá. E lá foi e voltou com um tabuleiro cheio de “malgões” e distribuiu-os um a um. E aparentemente não espantou ninguém. Isto deixou-nos a pensar: alguma vez tínhamos visto isto em Portugal?

Sendo que não é nada de espectacular em si mesmo, é um gesto bastante invulgar em Portugal, onde se cria uma barreira ridícula entre a “plebe” e a “realeza”. Ainda que também exista hierarquia aqui e esta seja respeitada, não há aqui “Dr. X” ou “Eng. Y”, as pessoas tem nome e é esse que se usa no dia-a-dia. Um dos nossos choques da “adaptação invertida” (isto é, quando voltamos esporadicamente a Portugal) é reparar o quanto certas pessoas adoram ter um “título”, que quase parece realeza, e quantas outras chamam essas pessoas pelo título quando na realidade lhes apeteceria era chamar-lhes outra coisa… Este é um sinal cultural dos países do Sul da Europa (já nos disseram que pelo menos em Itália e Espanha é igual) e não é certamente um sinal de equidade social, que é só por si um dos pilares de um país evoluído.

Todos certamente nos lembramos do gozo que o ex-ministro Álvaro Santos Pereira levou quando insistiu que o tratassem por Álvaro. E depois, quando foi ao Telejornal da RTP, o Carlos Daniel pediu-lhe desculpa por não lhe chamar Álvaro pois “o formalismo do Telejornal não o permitia”. Mas porquê? Na verdade, ele era capaz de ser uma das poucas pessoas em posição semelhante que poderia ser justamente chamado de Doutor (porque de facto tem Doutoramento), mas não queria... é o nosso país dos “doutores”.

As pessoas tratarem-se pelo primeiro nome por aqui é das coisas que mais gostamos. Não cria barreiras (que na verdade não devem existir), sem impedir que cada um saiba “o seu lugar”. Para quando isto em Portugal?


Nota: existem certamente excepções a esta regra, tanto cá como lá (e conhecemos algumas, para os "dois lados"!!), mas após alguns anos por cá esta é a nossa percepção.
 

domingo, 13 de abril de 2014

Bury St. Edmunds: uma experiência verdadeiramente Britânica!

O Harriet's em Bury St. Edmunds

Esta imagem é de uma belíssima coffee shop que podemos encontrar em Bury St Edmunds chamada Harriet's. Podia de de muitas outras cidades e vilas tais como Cambridge, Stratford-upon-Avon, Windsor, York ou até March. Mas esta coffe shop é especial para nós e vamos neste post tentar explicar o porquê. 

Quando se pensa no Reino Unido ou em Inglaterra, uma das primeiras coisas que ocorrem é seguramente Londres. E apesar de ser uma cidade fascinante, carregada de história, imponência e vida (até demais!), não é, em nossa opinião, uma representação fiel do que é o Reino Unido ou viver no Reino Unido. Londres, até para o comum dos nativos das nossas bandas, é assim uma espécie de “ilha” dentro da própria ilha, onde tudo é em grande, para o bem e para o mal.

Porém, não é preciso andar muito para fora de Londres para perceber que a realidade do país é bem diferente. Por exemplo, quem já fez a ligação de autocarro ou comboio Londres – Aeroporto de Stansted sabe que logo ao fim de 10/15 minutos entra numa grande planície verdejante e é este o panorama até ao aeroporto. Isto resume em grande medida o que é o Reino Unido (excluindo a Escócia, que parece ser bem mais montanhosa, e partes do País de Gales): uma grande planície verdejante com algumas grandes e médias cidades pelo meio (Londres é à parte, mas também existem outras cidades bem grandes como Birmingham, Manchester e Liverpool) e salpicada de muitas pequenas vilinhas onde tudo acontece bem mais devagar. O Reino Unido é um país com uma matriz rural muito marcada, ainda que uma ruralidade bem mais instruída e evoluída do que a que o termo normalmente carrega. Se as casas são de bonecas, as propriedades são de perder de vista. Há gado por todo o lado, cavalos, coelhos bravos, esquilos… é um deleite para quem gosta de campo e de um estilo de vida mais pacato.

O Hengrave Hall
E é neste contexto que Bury St. Edmunds se insere: é uma vila de 40000 habitantes que tem um estilo rural e tranquilo mantendo quase tudo o que uma cidade precisa de ter. Tem uma zona histórica muito pitoresca, uma arquitectura tradicional bastante preservada, espaços verdes públicos muito bem cuidados e uma delimitação muito clara entre zonas comerciais e residenciais. O ambiente é bastante mais homogéneo do que em cidades como Londres (há estrangeiros, como nós, mas nota-se muito menos a mistura) e o comércio é muito mais baseado em lojas de rua independentes.

Estátua do Rei Edmundo junto aos Abbey Gardens
Panorama do centro da vila
Deste comércio independente salta à vista a quantidade e qualidade de coffee e tea rooms, onde se podem comer os tradicionais bolos ingleses à fatia (o bolo de cenoura, de limão, de caramelo e café, …) e scones recheados deliciosos, acompanhados por um bom pote de chá (com muitas qualidades à disposição) ou um "malgão" de café à inglesa.

Cream tea no Harriet's
Destas destaca-se o Harriet's. Mas que o tem o Harriet's de especial? Pois bem, para além da sua localização bem no coração de Bury St Edmunds, destaca-se pelos funcionários vestidos como manda a tradição, a decoração, o serviço, tudo isto nos faz sentir que somos príncipes e princesas a tomar chá com a Rainha!



É este, em nossa opinião, o ambiente e contexto que melhor representa o ordenamento e estilo de vida da maioria dos britânicos (se excluirmos Grande Londres e os seus 10 milhões de habitantes, 1/6 da população total). Portanto, deixamos aqui o convite para o comprovarem, saindo da “rota batida” de Londres e partindo em busca de uma experiência verdadeiramente Britânica!