terça-feira, 4 de novembro de 2014

Fogo que queima a carteira!

Qual é a probabilidade de em Portugal alguém pagar para ir ver um banal fogo-de-artifício? E quando o valor a pagar é 7 euros para os adultos, 6 para as crianças e 22 para uma família com dois filhos? E, mais precisamente, quem pagaria estes valores (ou outros quaisquer) quando o mesmo fogo é visto do outro lado da “cerca”, a uns metros de distância, completamente à borla? Ah, e sem uma motivo de “caridade” muito concreto para justificar este pagamento. Quase zero? Bem, é o que nos parece. Mas se tivessem vindo a Bury St Edmunds no passado Sábado teriam mais uma prova de que existem diferenças culturais entre Portugal e o Reino Unido!

fonte: bury-st-edmunds.roundtable.co.uk

Cerca de sete...mil (!!!) pessoas, de acordo com os jornais locais, juntaram-se nos Abbey Gardens ao início da noite de Sábado para experienciar aproximadamente 20 minutos de fogo-de-artifício. Engarrafamentos e a quase impossibilidade de estacionar no centro provaram-nos o quão podemos ainda ser surpreendidos neste país. Ao ver aqueles preços, nunca nos passou pela cabeça aquele panorama.

fonte: buryfreepress.co.uk
Este espectáculo insere-se na tradição anual do Bonfire, que explicamos no blogue noutra ocasião. Ninguém leva o evento pirotécnico muito “a sério” (em termos de motivações) mas no fundo é uma espécie de “Dia do Orgulho Anglicano”. O que é realmente levado muito a sério é o aspecto lúdico do Bonfire. Em todos os cantos e esquinas encontramos “kits” de pirotecnia, para todos os orçamentos, para rebentar com o maior estrondo possível chegado o dia. É realmente impressionante, mesmo em pequenas vilas. Parece um ataque aéreo massivo! Perigoso? Sim, sem dúvida, pensamos nós, mas a realidade é que não se ouvem grandes preocupações com isto numa tradicionalmente "securitária" sociedade britânica!

fonte: burymercury.co.uk

Bem, mas para ser justo com o povo britânico, é muito raro ver fogo-de-artifício ao longo do ano. Vemos no Ano Novo em Londres e Edimburgo, mas pouco mais. Não é um país de “foguetes”. O que contrasta com o país do foguetório que somos, em que todas as terras e terrinhas, festas e festinhas têm de ter fogo-de-artifício para a celebração ser “como deve ser”! E então ouvimos foguetes “noite sim, noite não” de Junho a Setembro, o que diminui o “valor” dos foguetes e do espectáculo associado. É compreensível a excitação, mas daí a pagar 7 euros para ver fogo-de-artifício no céu que é de todos… ainda não estamos assim tão “british”!
 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A velha York

York é uma importante vila do Nordeste de Inglaterra, capital de um dos maiores condados de Inglaterra: Yorkshire. Moram em Yorkshire (em cidades como Leeds e Sheffield) aproximadamente 5 milhões de pessoas, tantas como em toda a Escócia (!). É uma zona tradicionalmente industrial, não propriamente turística nem especialmente amigável (uma das áreas com maior taxa criminal no Reino Unido). A vertente industrial já foi bem maior e as consequências deste declínio são bastante visíveis. Mas como se enquadra a vila de York no contexto global de Yorkshire?

Perspectiva de York
York é um sítio à parte no contexto do condado. É uma pequena vila histórica, envolta numa muralha erguida no tempo dos Romanos e com raízes na invasão Viking (nesses tempos era conhecida como Jorvik). Encontramos lá também uma das mais importantes Catedrais de Inglaterra, ainda que isso não nos parecesse argumento suficiente para o elevadíssimo preço de admissão.

Catedral de York


York tem ainda uma excelente oferta de museus e é realmente preciso fazer uma selecção! Visitamos o museu ferroviário, que era de facto soberbo! Contíguo à estação de caminhos-de-ferro, contém uma quantidade e qualidade de equipamento e informação que permitiria a um verdadeiro aficionado horas e horas de deslumbre! Isto não é de todo surpreendente, face à posição pioneira que o Reino Unido teve na ferrovia e da paixão colectiva por comboios. Cereja no topo do bolo: é um museu em que não se paga admissão, logo não há mesmo desculpa para o falhar!



O museu ferroviário

Outro museu muito interessante é o Museu Viking. É um museu “vivo”, pois reflecte um trabalho contínuo de descoberta de uma vila Viking onde hoje é o centro da vila. As primeiras descobertas ocorreram nos anos 1960 e desde então muito trabalho tem sido posto na descoberta destas raízes e na catalogação dos achados. É um museu para toda a família, muito bem organizado e com muita informação transmitida de forma interactiva, o que o torna ainda mais interessante!

O museu Viking (Jorvik) - fonte: www.picturesofengland.com

O centro da vila é bastante pitoresco, plano como habitual, com ruas muito estreitinhas que fazem lembrar o Porto. A arquitectura é geralmente imponente, mas muito baseada no típico tijolo de Londres (“cor de burro”). A oferta de lojas é excelente e não fica de todo a dever às grandes cidades. Não nos pareceu uma vila cara em termos gerais, estará um pouco abaixo do nível de Cambridge.

Uma das concorridas ruas pedonais de York

Em suma, vale certamente a pena visitar York, nem que seja como ponto de passagem rumo a paragens mais nordestinas como o Lake District e a Escócia. Viveríamos lá? Bem, não se deve dizer “dessa água não beberei” mas o contexto social não é propriamente chamativo e é só por si um factor fortemente dissuasor para não morarmos por estas bandas… mas esperamos voltar um dia, quanto mais não seja para visitar os outros museus que não tivemos tempo de visitar desta vez!
 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Edimburgo

Na semana da grande decisão na Escócia, vimos falar de Edimburgo.

Estivemos lá há um par de meses e foi a nossa estreia por aquelas bandas, neste caso as Terras Baixas. E que estreia em grande!

Edimburgo é muito diferente da típica cidade britânica, a começar pelo relevo: é verdade, tem montes! E o mais alto deles está a 251 metros de altitude e chama-se "Arthur's Seat", de onde se tem uma vista priveligiadíssima sobre a cidade.

O Arthur's Seat

A arquitectura também é bem diferente: é grandiosa, imponente, quase imperial.

Vista de Edimburgo a partir do Calton Hill, com o Governo da Escócia em primeiro plano

A Royal Mile, cuja extensão é na verdade um pouco mais que uma milha, liga o Palácio Real de Holyrood (residência oficial da realeza Britânica na Escócia) e o Parlamento da Escócia ao Castelo, bem no topo da colina. Sempre a subir, pois bem! Percorrer a Royal Mile é tão fundamental como fazer o percurso Ribeira-Foz no S. João do Porto. É um percurso que espelha a cidade e o país. Um verdadeiro deleite histórico, cultural e, porque não, comercial. É a verdadeira espinha dorsal da cidade, por oposição ao habitual "town/city centre" da generalidade dos sítios na Grã-Bretanha. Esta analogia é tão mais válida se tivermos em conta que ao longo da subida passamos por inúmeras  travessas (as famosas "closes", como a Mary King's Close), que em muito fazem lembrar as ruas estreitas em paralelo e de sobe e desce do nosso centro histórico do Porto, que por momento nos faz pensar que estamos em casa.

Royal Mile

Outra perspectiva da Royal Mile ou será da Rua Mouzinho da Silveira?!

Curioso que não pudemos visitar o palácio de Holyrood visto estarem lá na altura os "Duques de Rothesay". Tradução: Carlos e Camila! Ficamos a saber que mal passam a fronteira anglo-escocesa deixam de ser Príncipe de Gales e Duquesa da Cornualha e passam a ser Duques de Rothesay...manias!

O palácio de Holyrood [Fonte: www.edimburgo.com]

O parlamento escocês é um edifício relativamente modesto. É a casa de cerca de 130 deputados  nacionais. Por outro lado, em Westminster (Londres) existem cerca de 60 lugares no Parlamento do Reino Unido de deputados escolhidos nos círculos eleitorais da Escócia, um número bastante exagerado em relação a outras regiões do (por enquanto) Reino Unido. A parte curiosa é que no caso da Escócia votar pela independência, durante cerca de um ano (até às próximas eleições legislativas) 60 pessoas de "outro país" vão votar em assuntos que só dirão respeito a outro país. Na prática isso já acontece, em face à grande autonomia que a Escócia conquistou nos últimos 20 anos: quase tudo o que é lei na Escócia é determinado por Holyrood e no entanto existem (demasiados) deputados "escoceses" em Westminster a decidir assuntos que respeitam a todos os britânicos. A ver vamos se a Great Britain continua Great ou Not So Great e passa a Little Britain (como a série da Britcom)!

Pormenor do interior do parlamento escocês (hemiciclo)

O Castelo é o culminar da Royal Mile e é uma zona fortificada formada por vários edifícios, à semelhança  do Castelo de Praga por exemplo. Infelizmente não pudemos desfrutar das vistas do Castelo visto ter estado um inclemente nevoeiro. Mas num dia de sol é sem dúvida um MUST!

Edimburgo visto do castelo no dia em que lá fomos
Vista de Edimburgo a partir do castelo num dia bom! [Fonte: www.almadeviajante.com]

É sem dúvida uma cidade cosmopolita, que respira história e autenticidade. As pessoas são realmente muito simpáticas e tivemos a felicidade de comer muito bem em todos os sítios que fomos, o que é uma raridade por estas bandas. Que pena que é tão longe senão mudavamo-nos para lá! Entretanto  aqui fica a promessa que havemos de lá voltar. Até breve Edimburgo!

Uma das muitas "closes" de Edimburgo com muitas histórias para contar.